Xixi fora da caixa de areia é forma do gato mostrar desconforto

Eu era bem jovem, mas lembro bem quando Sofia, já velhinha, começou a fazer xixi fora da caixa de areia. Aos olhos da família, a gata, sempre tão limpinha, tinha enlouquecido.


Broncas foram a primeira providência, sem nenhum sucesso. Depois, começaram as outras: mudar a caixa de lugar, limpar mais frequentemente a liteira, trocar o tipo de granulado. Nada.


Lá foi, então, Sofia ao médico veterinário, que apostou em infecção urinária, mas o tratamento também não deu nenhum resultado.


Eis, então, que alguém se lembrou de que a gata já tinha idade avançada e pensou em cortar um pouco as abas da caixa de areia. Altas, elas poderiam estar se tornando um obstáculo intransponível. Bingo!


A micção em local inapropriado não é rara entre os gatos e aparece entre as principais causas de abandono e eutanásia fora do Brasil (não há dados nacionais). Diante do problema, o roteiro se repete com frequência: a família busca respostas na internet, gasta uma boa grana com caixas e produtos que prometem milagres, mas o gato segue urinando por toda a parte.


O ponto de partida é pensar fora da caixa, com o perdão do trocadilho, como alguém fez no caso de Sofia. Claro que alterações de sistema urinário podem estar na raiz do problema, mas há muito mais o que investigar.


Em teoria, qualquer problema de saúde que cause dor ou desconforto em qualquer área do corpo (como era o caso das articulações com artrose de Sofia) pode levar o gato a urinar fora da caixa. Também devem estar na lista doenças que aumentem a urgência ou frequência de micção, como alterações endócrinas, ou que alterem a relação do gato com o ambiente, como alterações neurológicas.


Só depois de descartados todos os problemas médicos (também as infecções urinárias, mas não apenas elas) é que se deve pensar que o gato possa estar demarcando território ou apresentando insatisfação com o local da micção (o que, no caso de Sofia, foi a primeira hipótese da família). E a ordem é essa por uma simples questão de frequência, de probabilidade.


O problema é que descartar problemas médicos exige gastos com consulta e exames. E a consulta tem de ser bem feita! O médico veterinário deve buscar outros sinais clínicos compatíveis com as doenças que possam causar a micção inadequada. No caso de Sofia, uma boa anamnese teria revelado que a gatinha já não conseguia subir nos móveis e daria uma pista da causa do abandono da liteira.


O gato está bem de saúde? Então a insatisfação com a liteira pode, sim, ter raiz na frequência com que ela é limpa ou no tipo de substrato com o qual ela é preenchida (gatos gostam de areias de rápida absorção), como apostou inicialmente a família de Sofia. Mas também para a insatisfação felina há outros motivos que devem ser considerados.


Um dos principais é que gatos exigem privacidade e, muitas vezes, trocam a caixa de areia por um local mais tranquilo da casa. Esses animais apresentam frequência e características normais de micção (se posicionam, cheiram, andam um pouco em círculo e tentam esconder a urina), bem diferente de animais que não urinam na liteira por razões médicas.


Por fim está a possibilidade de o gato estar demarcando território, o que, via de regra, indica que ele está sob estresse, vive com vários animais, se sente ameaçado ou sofreu alguma mudança de rotina.


Nesse caso, o gato não vai urinar em locais sem fluxo de pessoas, como os animais que buscam privacidade. Ao contrário: demarcar território é parte do comportamento social dos felinos e só faz sentido se a demarcação puder ser percebida por pessoas ou outros animais. Quinas de móveis, portas, janelas e locais de passagem são os preferidos, assim como objetos que emitem cheiro, calor ou que sejam novos na casa.


Em geral, eles urinam em pequenos volumes, para demarcar um número maior de locais. Também a postura de micção é anormal, porque esses gatos gostam de marcar as superfícies verticais e não tentam esconder a urina.


Gatos que estão demarcando território podem, por vezes, urinar na caixa de areia. E esse acerto eventual é uma pista da causa do problema.


O principal, no entanto, é entender que, seja qual for a razão pela qual o seu gato não está buscando a caixa de areia, isso é um sinal de que ele está sofrendo. O problema pode ser mais ou menos grave, mas você precisa ir atrás da causa.

Fonte: Folha de S.Paulo / F5

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