A pandemia trancou todo mundo em casa e o tédio logo virou a regra do jogo. Foi no meio dessa ressaca de isolamento, lá pro final de março de 2020, que a galera ressuscitou uma ferramenta que o Google já tinha lançado um ano antes. De repente, a internet foi inundada por fotos de pessoas com tigres, dinossauros ou até planetas no meio da sala de estar.
Era o escapismo perfeito pra quem tava tentando passar o tempo livre, especialmente com criança pequena em casa. A brincadeira com a realidade aumentada era simples: você abria o app de buscas do Google no celular, jogava o nome do bicho e rolava a tela até achar a opção de modelo em 3D. Dando um toque em “Veja em 3D” e depois em “Veja no seu espaço”, o aplicativo pedia pra você apontar a câmera pro chão pra reconhecer o ambiente. Em questão de segundos, o animal brotava ali na sua frente, permitindo tirar fotos e gravar vídeos como se ele fizesse parte da família. A onda deu uma esfriada depois de um tempo, mas voltou com força alguns meses depois, quando a ficha caiu de que a quarentena ia longe.
Claro que a magia não funcionava pra todo mundo. Quem tinha um celular incompatível com a tecnologia ficava chupando dedo, ou então quebrava a cabeça tentando descobrir que o problema era só o aplicativo Google Play Services para RA desatualizado ou não instalado. Mas, no geral, a gente achava o máximo trazer a vida selvagem pra dentro da nossa bolha, mantendo o bicho dócil, virtual e contido na tela.
Só que essa fascinação por observar a natureza dentro de casa ganha outra perspectiva quando olhamos para os animais de estimação reais que mantemos em recintos fechados. Enquanto a gente se distraía com projeções inofensivas, muitas pessoas observavam seus pets, especialmente répteis, em uma interação constante e exaustiva contra as paredes de vidro de suas casas.
Os criadores chamam isso de “surfar no vidro”. O bicho corre, cava, nada ou tenta escalar a barreira invisível do aquário repetidas vezes. No começo, pode até parecer fofinho, dando a impressão de que o réptil tá super curioso e a fim de explorar. O problema é que o lagarto simplesmente não para, e a situação se transforma em um sinal claro de estresse. É angustiante para o tutor ver o bicho de estimação tão inquieto, esfregando o focinho no vidro de forma incansável na tentativa de sair. Entre os cientistas, esse comportamento contínuo é classificado como um comportamento repetitivo, semelhante àquela caminhada incessante que vemos em ursos polares em zoológicos.
Por que eles fazem isso e como a gente pode ajudar a acalmá-los? Nosso laboratório resolveu investigar o dragão-barbudo, que é um dos pets exóticos mais populares do mundo, e os resultados entregaram algumas semelhanças curiosas com os mamíferos.
Carnívoros grandes, tipo leões e visons, ficam andando de um lado pro outro em cativeiro basicamente porque a vontade de se movimentar livremente é frustrada. Com os lagartos, a lógica bateu em cheio. Inspirados num estudo dos anos 90 com camundongos, fomos mapear pra onde exatamente os lagartos direcionavam essa energia toda. Eles não se debatem de forma aleatória: eles focam na única “porta” do recinto ou nas barreiras transparentes. Se a gente cobria parte da porta, o comportamento ficava ainda mais focado no pedacinho de vidro que sobrava.
Muitas vezes, a culpa é do próprio ambiente. Terrários quentes demais, apertados ou simplesmente monótonos costumam ser o gatilho pra essa necessidade de explorar o mundo lá fora. Aumentar o espaço e colocar uns elementos novos lá dentro costuma ajudar a diminuir o “surfe”, mas a história é um pouco mais complexa e isso nem sempre resolve o problema de cara.
Um dado quase cômico que a gente descobriu foi a relação com a higiene. A chance do dragão-barbudo defecar durante esses momentos de “surfe” no vidro é 15 vezes maior. Aparentemente, assim como roedores e outros lagartos, eles detestam fazer as necessidades perto de onde comem e dormem. Só não ficou muito claro o que vem primeiro: se é a vontade de ir ao banheiro longe do “quarto” que causa a agitação no vidro, ou se é a agitação que estimula o intestino do bicho.
O calendário também joga seu papel. Na primavera, as fêmeas entram num instinto de tentar atravessar o vidro muito maior que no inverno, e bem mais intenso que o dos machos. Isso reflete o comportamento delas na natureza, onde as fêmeas selvagens andam por distâncias enormes nessa época do ano, enquanto os machos ficam mais restritos patrulhando o próprio território. No cativeiro, a fêmea simplesmente sente um desejo incontrolável de bater perna, enquanto o macho se contenta mais facilmente em dar as rondas dele dentro do aquário mesmo.
Curiosamente, também esbarramos em coisas que não confirmaram as teorias antigas. Em mamíferos, esse vai e vem obsessivo costuma estar muito ligado à hora da comida. Pros nossos lagartos, a fome não apita nada. Dragões-barbudos adultos são forrageadores bem menos ativos, quase vegetarianos preguiçosos que ficam esperando o inseto dar sopa. A comida não serve de gatilho pra fuga. Além disso, por mais que eles entrem nessa agitação de cavar e arranhar, eles nunca ficam totalmente presos nesse ciclo infinito de comportamento como rola com outros vertebrados.
Entender se isso vale para todos os répteis pode ser a chave para desvendar como esses comportamentos se desenvolvem e como podemos garantir mais qualidade de vida para eles. No fim das contas, a nossa necessidade de projetar bichos virtuais numa tela e a vontade de um lagarto de atravessar o vidro mostram que, no fundo, a conexão com o mundo amplo e sem barreiras é algo que fascina tanto humanos quanto animais.