“Que animais são mais velhos que David Attenborough?” Essa provocação levanta uma reflexão interessante sobre o tempo e a evolução biológica. Quando o lendário naturalista britânico começou a catalogar e narrar a vida na Terra, muitos dos vertebrados que vemos hoje já carregavam uma arquitetura moldada por milhões de anos. Ter uma coluna vertebral e um crânio — a armadura óssea ou cartilaginosa que protege nosso cérebro e a medula espinhal — é a grande assinatura do filo dos cordados. Foi essa estrutura interna de sustentação que permitiu a uma enorme diversidade de espécies conquistar a água, a terra e o ar, separando-nos definitivamente do universo dos invertebrados.
A dimensão dessa diversidade é brutal e abraça desde os peixes minúsculos até as baleias colossais, dividindo-se em cinco grandes grupos adaptados aos mais variados habitats. Os peixes, por exemplo, são os donos absolutos dos mares e rios, representando a maior fatia de espécies entre os vertebrados. A biologia deles é essencialmente aquática: são bichos pecilotérmicos, o que significa que a temperatura do corpo vai na onda do ambiente ao redor. Respirando pelas brânquias e operando com um coração modesto de apenas duas cavidades (um átrio e um ventrículo), eles contam com um sistema digestório completo que inclui faringe, esôfago, estômago e glândulas anexas como fígado e pâncreas. Na hora de se multiplicar, a classe dos condrictes (os peixes cartilaginosos) aposta na fecundação interna, com o macho introduzindo os espermatozoides na fêmea. Já os osteíctes (peixes ósseos) preferem a praticidade de liberar os gametas direto na água, onde o espermatozoide encontra o óvulo para formar o zigoto.
Quem decidiu se arriscar fora d’água primeiro foram os anfíbios, mas a transição cobrou seu preço biológico. Eles vivem num eterno meio-termo. A pele fina e pobremente queratinizada os obriga a não se afastarem da umidade para não ressecarem. A mágica da sobrevivência acontece mesmo no meio aquático, onde a fecundação externa produz ovos com membranas transparentes. Lá dentro, os embriões se alimentam das reservas do próprio óvulo até eclodirem como girinos sem patas, munidos apenas de cauda e brânquias. O coração, agora com três cavidades, sustenta o animal até que ele sofra uma verdadeira metamorfose. Brânquias e cauda são reabsorvidas, os pulmões se desenvolvem e quatro patas despontam, marcando a entrada na fase adulta e terrestre.
A virada de jogo, que garantiu independência da água há cerca de 300 milhões de anos, veio com os répteis, os primeiros vertebrados efetivamente desenhados para ambientes secos. Com escamas de cobra, placas de jacaré ou carapaças de tartaruga blindando a pele, e ovos ovíparos de casca rígida que vingam perfeitamente na baixa umidade, eles dominaram a terra firme. O coração da maioria já apresenta ventrículos parcialmente divididos e os pulmões criaram dobras internas para dar aquele gás na capacidade respiratória, suportando dietas carnívoras, herbívoras e onívoras. As aves vieram na sequência evolutiva, apostando alto nas penas e na endotermia — o privilégio de manter a temperatura do corpo estável por conta própria. São mais de 9 mil espécies ovíparas que, mesmo tendo pulmões pequenos, usam sacos aéreos engenhosos (ramificações membranosas) para garantir o fôlego necessário para voar, complementados por corações totalmente divididos e sistemas digestivos impecavelmente completos.
Mas e nós, os mamíferos? Usamos nosso sistema nervoso central superdesenvolvido para inventar maneiras de explorar os habitats de todos esses outros vertebrados. Só que a nossa ousadia tem lá suas ironias e riscos ocultos. A gente constrói navios gigantescos para atravessar os oceanos, muitas vezes cruzando o globo até a Antártida para admirar de perto o território gelado, e acaba esquecendo da nossa própria vulnerabilidade física, seja o clássico enjoo de viagem ou as ameaças invisíveis a olho nu.
O ambiente confinado de um navio é um prato cheio para a biologia mostrar quem dita as regras. Recentemente, a notícia de que três pessoas morreram num surto de hantavírus a bordo de um cruzeiro que retornava da Antártida para a Europa deixou muita gente com a pulga atrás da orelha. Afinal, qual é a chance real de você pegar uma doença infecciosa numa viagem dessas? A resposta exige olhar para os dados antes de ceder ao pânico. Um estudo europeu que mastigou as informações de 760 cruzeiros americanos entre 2010 e 2013 revelou que a taxa geral de adoecimento é de 2,81 casos para cada 10.000 dias-viajante. O grande vilão estatístico? O norovírus, responsável por 97% das ocorrências, atuando como o verdadeiro estraga-férias em alto-mar. A pesquisa ainda pescou um padrão curioso sobre a origem das rotas: o risco de surtos pipocava com mais força em navios cujos portos de origem ficavam em Cuba ou no Egito, enquanto as embarcações baseadas na França, Grécia, Itália ou Reino Unido ostentavam os números de contaminação mais baixos.
No fim das contas, a espinha dorsal e o crânio nos trouxeram incrivelmente longe. Deixamos as águas, adaptamos nossos pulmões, conquistamos continentes e agora rodamos o planeta em fortalezas flutuantes. No entanto, seja você um animal ancestral observando o tempo passar ou um turista com biologia complexa enfrentando um vírus a bordo de um cruzeiro de luxo, a natureza não alivia a barra de ninguém. O corpo do vertebrado pode ser uma das obras-primas da adaptação, mas a trama da vida não abre exceções.